13 de julho 2017

Informação

As muitas estórias no envio das 1001 Cartas para Mosul

 

'Tentarei pôr os vossos olhos onde já estive com os meus e, se possível, também o vosso coração'. Assim explica o autor de "1001 Cartas para Mosul" logo no início da sessão de apresentação da obra que lotou a Sala Miguel Torga, no dia 13 de julho, em Coimbra. Recuando no temporizador desta sessão, ouçamos o início desta apresentação: Catarina Matias, vogal do Conselho Regional do Centro da Ordem dos Médicos e anfitriã desta apresentação, salientou a "honra" para a Ordem e a contínua "disponibilidade" da Secção Regional do Centro para divulgar e acolher o trabalho de Gustavo Carona. "Estamos ávidos e com muita vontade de ouvir", disse.

De seguida, Gustavo Carona de Magalhães, médico anestesista e intensivista no Serviço de Medicina Intensiva do Hospital Pedro Hispano, em Matosinhos, agradecendo aos que tornaram possível esta apresentação em Coimbra, fez uma súmula da obra de forma peculiar, acompanhando as suas palavras com fotografias de missões prévias. "Carrego comigo esta tentativa de aproximar dois mundos, de deixar uma mensagem. Acredito que, do ponto de vista pessoal, aquilo que mais me dá prazer e gratidão e reforça as minhas motivações, são as minhas interações com os doentes e com o staff local". Esta proximidade emotiva, assegura, reforça o seu sentido de missão.
Legado, partilha, solidariedade. Muitos acreditam que o caminho é o da entrega e compreensão pelo outro. Gustavo Carona é um dos muitos que protagoniza essa crença em atos. Contextualiza: "Os Médicos sem Fronteiras acreditam que todas as vidas são iguais, que a entrega de cuidados médicos deve ser apenas e só proporcional às necessidades, tenho orgulho em representar esta máquina muito grande". E do sentido de fraternidade e entrega ao outro sem olhar a fronteiras, crenças, surge este livro. "Fui confrontado com realidades fortíssimas, não estava de forma alguma preparado para tal".

Ano de 2009. Gustavo Carona recorda que foi na República Democrática do Congo que tudo começou. Desde então já integrou inúmeras missões humanitárias, sempre em cenários de guerra: Paquistão (2011), Afeganistão (2012), Síria (2013) e República Centro Africana (2016), Iraque (2017) . O Congo, "o conflito mais mortífero dos nossos dias, onde já morreram milhões de pessoas desde II Guerra Mundial". É aí perante este grau de devastação humana que o jovem médico inicia mais uma etapa do seu percurso. No Paquistão, teve o maior confronto civilizacional mas sublinha: "surpreendente é que são pessoas como nós, que querem Paz, construir família, sorrir....".

E é no desiderato de aproximar os povos que surge "1001 cartas para Mosul".
O livro, cuja venda reverte integralmente a favor dos Médicos Sem Fronteiras e Plataforma de Apoio aos Refugiados, "surgiu porque Mosul apareceu no mapa na minha vida". Confessa o autor: "Já há muito tempo que estava atento ao Iraque e tinha o desejo escondido de ir ao Iraque". Gustavo Carona foi, pois, protagonista de uma missão: levou na mochila muito mais do que roupa.

Livro. Uma obra onde se reúnem mensagens de portugueses, traduzidas para inglês e árabe e que o autor transportou para a cidade de Mosul, no âmbito de mais uma missão humanitária naquela martirizada cidade do norte do Iraque. "1001 cartas para Mosul". Recusando entrar nos meandros da política internacional, Gustavo Carona não tem dúvidas de que esta guerra é também nossa, direta ou indiretamente. Reuniu, nesta obra, mensagens de portugueses, traduzidas para inglês e árabe e que o autor levou consigo para a cidade de Mosul, no âmbito de mais uma missão humanitária naquela martirizada cidade do norte do Iraque. Para o médico anestesista e intensivista, a escala deste livro advém de todas as pessoas que nele participaram: 250 pessoas. Tantas pessoas quantas responderam ao seu apelo lançado através da rede social Facebook, no sentido de levar uma mensagem para Mosul. Um mês após o apelo, estava publicado o livro.

"O que dizemos às pessoas que morrem na sequência da nossa indiferença? Percebi que estava a agitar consciências. Muitas pessoas [nas cartas] manifestaram perdão, impotência perante este conflito, outros disseram que não conseguiam escrever tal a intensidade do tema. No fundo, as pessoas abriram o seu coração através deste livro e manifestaram compaixão, amor, fraternidade. Escreveram-se coisas muito bonitas".

Vinte e oito cópias de "1001 cartas para Mosul" foram entregues no fim da missão, essencialmente médicos e enfermeiros que trabalharam com Gustavo Carona. "Era ali que as palavras faziam sentido. Espero que as mensagens cheguem ao Iraque e que, tal como nos meus sonhos, também ao resto do mundo".

Eis Gustavo Carona, médico de corpo inteiro e alma onde cabe todo o mundo que sofre. Com chancela da Editora Omega, mais do que um livro, "1001 Cartas para Mosul" é um hino de esperança.